SAP Build Work Zone: o que não migra do portal legado
A conversa sobre SAP Build Work Zone quase sempre começa errada. Alguém mostra a tela nova, elogia o visual, e a decisão vira estética. Não é. É prazo.
O SAP Enterprise Portal saiu de manutenção padrão, e com ele o Fiori Launchpad hospedado no portal. Quem tem portal legado não está escolhendo migrar — está escolhendo quando. E a diferença entre escolher agora e ser empurrado depois é a quantidade de coisa que se perde no caminho.
O que realmente muda
No portal, a unidade era a página: alguém montava uma, colocava iViews dentro, e a navegação vinha de uma estrutura de pastas com permissão própria. No Work Zone a unidade é o espaço — um recorte por papel, não por assunto — e dentro dele páginas com cartões.
Parece renomeação. Não é. No portal a permissão vivia na estrutura de navegação; no Work Zone ela vem do papel de negócio que atribui o espaço. Quem migrou a tela sem migrar o modelo de permissão descobre no primeiro dia de produção, quando metade dos usuários vê o que não deveria e a outra metade não vê o que precisa.
O que não atravessa sozinho
Há quatro categorias de conteúdo no portal legado, e elas se comportam de forma bem diferente na migração.
Aplicações Fiori e transações SAP GUI atravessam bem. São o caso feliz: o catálogo já existe, o destino já está mapeado, e o trabalho é reorganizar, não reconstruir.
iViews de URL e conteúdo externo atravessam com ajuste. Viram cartões de link ou aplicações web, e o que costuma quebrar é autenticação — o que funcionava por sessão do portal precisa passar a funcionar por token.
iViews Web Dynpro Java são o problema. Não há caminho direto, porque o runtime que os executa é do próprio portal. Cada um precisa de decisão: reescrever, substituir por padrão SAP, ou aposentar. É aqui que o cronograma estoura, e é a primeira coisa que vale inventariar.
Customização de tema e branding não atravessa. O Work Zone tem seu próprio motor de tema, e o que era CSS no portal precisa ser refeito na ferramenta nova.
A ordem que evita retrabalho
A sequência importa mais do que a ferramenta. Quem inverte os dois primeiros passos remonta tudo duas vezes.
Primeiro, inventariar o que existe de verdade. Não a lista de páginas do portal — a lista do que é usado. O log de acesso dos últimos seis meses costuma revelar que metade do portal não é aberta por ninguém há anos, e migrar isso é pagar para carregar peso morto.
Segundo, desenhar os espaços por papel. Antes de tocar em qualquer tela. O espaço é o recorte de quem usa, não de quem construiu — e essa conversa é com o negócio, não com a TI.
Terceiro, remontar o catálogo. Aqui vale aproveitar para limpar: catálogo que acumulou dez anos de exceção é o momento de racionalizar, porque o custo de arrastar a bagunça é o mesmo de arrumá-la.
Quarto, tratar os Web Dynpro Java um a um, com decisão registrada. Reescrever, substituir ou aposentar — e quem decide é o dono do processo, não o time técnico.
Quinto, rodar em paralelo antes de desligar. Portal e Work Zone convivendo por algumas semanas, com um grupo real usando, é o que revela o que o inventário não pegou.
Onde a IA ajuda de verdade aqui
Não na migração em si — ela é estrutural, não interpretativa. Onde ela rende é no inventário: ler a estrutura de navegação do portal, cruzar com o log de uso e propor o mapeamento inicial de espaços por papel é exatamente o tipo de trabalho volumoso e repetitivo em que a leitura automática economiza semanas.
O que ela não faz é decidir o que aposentar. Essa decisão tem dono, e o dono é o negócio.
O limite honesto
Work Zone não resolve processo ruim. Se a aprovação hoje passa por quatro pessoas porque ninguém confia no controle, ela vai passar por quatro pessoas com uma interface mais bonita. A migração é uma boa ocasião para revisar isso — não é a revisão.
E não é projeto de semanas. Um portal legado com dez anos de conteúdo, tratado com honestidade, é trabalho de meses — a maior parte deles em decisão, não em configuração.
Na Inove, esse tipo de migração entra no mesmo desenho de práticas SAP em que tratamos perfis, catálogo e autorização: o que decide o prazo não é a ferramenta, é quanto do que existe hoje alguém consegue decidir aposentar.